Ter Filhos Expõe Nossas Maiores Idolatrias
A jornada da maternidade e paternidade, desde as primeiras noites sem dormir até a lida diária com birras e desobediências, é frequentemente apresentada pela cultura moderna como um obstáculo à busca desordenada de interesses e prazeres pessoais. O mundo, influenciado por uma visão pragmática, chega a enxergar filhos como fardos a serem evitados ou impedimentos para a realização individual. Contudo, à luz das Escrituras e do propósito pactual que rege a família cristã, a criação de filhos é, na verdade, o escrutínio mais profundo que podemos enfrentar, um processo doloroso, mas santificador, que desvenda o egoísmo aninhado em nosso próprio coração.
A autora Simone Quaresma, em "Flechas na Mão do Guerreiro", nos convida a reajustar as lentes da nossa cosmovisão, desviando-nos dos padrões mundanos para focar no propósito de Deus. Quando abraçamos o chamado divino para a criação bíblica, descobrimos que nossos filhos não são um apêndice da nossa vida, mas um empreendimento de serviço ao céu. E é nesse serviço árduo que o Senhor, em Sua graça, nos força a confrontar o ídolo central da vida pós-queda: o eu.
1. A Crise do Sustento: O Egoísmo Financeiro Desmascarado
Um dos medos mais imediatos que assaltam os pais ao pensarem em aumentar a família é a ansiedade sobre o sustento: pagar a universidade, os cursos, as roupas de marca e o plano de saúde. Esse temor é um sintoma profundo que evidencia o que está em nosso coração.
A Palavra de Deus nos adverte severamente contra essa preocupação excessiva, equiparando-a à mentalidade pagã. Jesus nos ensina a não andarmos ansiosos, perguntando: "Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas".
Nossa sociedade ama mais coisas do que pessoas. Quando atrelamos a quantidade de filhos à nossa condição financeira, ou quando o desejo por mais bens e confortos nos leva a limitar a prole, estamos praticando uma forma de idolatria. Estamos negligenciando a concepção de filhos, mesmo que a Bíblia afirme que a fertilidade é uma bênção divina. Na essência, essa atitude revela que estamos dispostos a trocar os tesouros eternos (a vida de um portador da imagem de Deus) por coisas terrenas, buscando primeiro a segurança e a glória dos homens.
A fé bíblica, por outro lado, nos ensina a trabalhar com diligência, mas a confiar inabalavelmente no Pai celestial. Aquele que alimenta as aves do céu e veste os lírios do campo certamente cuidará de seus filhos. Portanto, a decisão de ter filhos é o primeiro passo para cultivar um espírito de contentamento, ensinando-nos (e aos nossos filhos) a sermos felizes com o que o Senhor provê, e não com o que a cobiça exige.
2. A Preguiça e a Indulgência: O Egoísmo na Prática
O egoísmo não se manifesta apenas em grandes decisões financeiras; ele se revela na preguiça e na falta de fé na trincheira da maternidade. A criação de filhos é um empreendimento exaustivo, lidando com pilhas de roupas, noites mal dormidas e o trabalho duro de um provedor.
É no meio desse cansaço que surge a tentação da indulgência, que é tolerância, flexibilidade e complacência. Pais indulgentes, movidos por falso amor ou, mais frequentemente, por pura preguiça e o desejo de conforto, adiam a disciplina ou fingem não estar vendo o que os filhos fazem.
Ao invés de encarar a briga dos irmãos como uma chance de pastorear o coração e expor o egoísmo e a ira ali presentes, o pai ou a mãe negligente prefere o silêncio e o sossego. Eles demonstram que seu próprio descanso é mais importante do que o bem-estar perene da alma de seus filhos.
A Bíblia denuncia essa atitude como profundamente pecaminosa, pois a disciplina é uma expressão e demonstração do amor pactual: "O que retém a vara aborrece a seu filho, mas o que o ama, cedo, o disciplina" (Provérbios 13.24). Ser indulgente é um mal cruel, pois comunica à criança que suas transgressões não têm consequências. Em vez de livrar a criança de um incômodo momentâneo, estamos abandonando-a ao seu pior inimigo: o pecado.
A disciplina exige que os pais sejam observadores e não complacentes. Se a ira se acende quando o filho desobedece, muitas vezes, isso diz mais respeito à ofensa sentida pelo pai (que teve seus planos ou seu sossego interrompidos) do que à real gravidade do pecado do filho contra Deus. Os pais que priorizam o próprio controle se tornam o centro da educação, e não Deus.
O amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores.
3. A Revelação do Coração: A Luta pela Santificação Pessoal
Ter filhos é a arena onde Deus, em Sua providência, nos força a lutar contra nossa própria natureza pecaminosa e fazer com que os filhos entendam a sua condição caída.
A maneira como lidamos com a desobediência dos filhos é um espelho para a nossa própria falta de confiança no evangelho. Quando inventamos desculpas para o pecado deles ("É que ele estava com fome," "Seu cérebro ainda não está maduro"), estamos, na verdade, "cosendo folhas de figueira" para cobrir a nudez do pecado, tal como Adão e Eva.
O evangelho exige renúncia. O coração, por causa da Queda, se tornou egocêntrico e idólatra. Nossa missão, como pais e mães, é ajudar essas almas eternas a renunciar aos seus próprios desejos e interesses, submetendo-os à autoridade dos pais e, consequentemente, a Deus. Se os pais toleram a desobediência, fazem coro com a serpente no Éden: "É certo que não morrereis!".
Analogia: O lar cristão é como uma fornalha de purificação para os pais. O metal precioso (o caráter de Cristo) está sendo forjado através do fogo das lutas diárias com os filhos. O calor da maternidade e paternidade derrete a escória do nosso egoísmo, revelando o quanto ainda priorizamos o conforto, a carreira e o próprio controle, em vez de buscar em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça.
Conclusão: O Legado que Permanece
A Bíblia nos ensina que a família é a maior riqueza neste mundo e o único tesouro que, pela graça de Deus, levaremos conosco para a eternidade. É por isso que Satanás, o grande fomentador da morte, busca atrapalhar o nascimento e a criação da santa semente.
Se você se sente confrontado pela maneira como o seu egoísmo tem moldado suas decisões, corra para a cruz. Nossas falhas não são motivo de desespero, mas uma oportunidade para o evangelho. Quando você pecar contra seu filho, corra para a graça e ensine-lhe o caminho do arrependimento.
O seu trabalho, ainda que imperfeito e exaustivo, está forjando flechas, preparando a continuidade da igreja, os próximos líderes e pregadores. Lembre-se: "O Senhor da seara ampara você, te conceda sabedoria do alto, inunde a sua alma de alegria e revista os seus braços de força". Que o nosso maior prazer seja a segurança de que, pela graça de Cristo, a nossa família se apresentará unida diante do trono.
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