A Igreja Imperfeita e a Glória que Ainda Virá
Para muitos cristãos sinceros, congregar aos domingos tornou-se um exercício de frustração. Quando lemos a linguagem poética e elevada das Escrituras sobre a igreja, chamando-a de a Nova Jerusalém, a Noiva do Cordeiro, imaculada e gloriosa, e depois olhamos para a nossa congregação local, o contraste é chocante. Como o teólogo Douglas Wilson aponta na obra Fundamentalismo puro e simples, é muito tentador olhar para aquele grupo heterogêneo de pessoas que se reúne em cadeiras dobráveis, cantando desafinado e lidando com conflitos mesquinhos, e concluir que crer na glória da igreja é fazer um esforço para acreditar naquilo que sabemos ser falso. Diante de divisões, cultos medíocres e da vaidade de pregadores modernos, a igreja real parece um completo desastre.
O grande erro que cometemos ao nutrir esse cinismo, contudo, é ignorar o fator tempo e a narrativa maior da redenção. Wilson argumenta de forma brilhante que estamos julgando a igreja por uma “foto instantânea”, quando deveríamos estar assistindo ao “vídeo”. A retórica majestosa da Bíblia não está descrevendo o estágio inacabado da congregação que frequentamos hoje, mas sim a igreja escatológica, ou seja, aquilo que ela inevitavelmente se tornará no fim da história. Se a Noiva de Cristo será perfeitamente gloriosa, sem mácula nem ruga no futuro, é completamente lógico raciocinar que a igreja histórica e terrena do presente ainda esteja coberta por algumas manchas e imperfeições.
Para curar o nosso olhar imediatista, a obra utiliza a profunda metáfora da semente e da colheita. A história cósmica está cheia de sementes que passam muito tempo escondidas no solo antes de brotarem. Como o autor ilustra com precisão, não devemos desprezar o dia dos pequenos começos: uma futura Miss Brasil ou um feroz zagueiro da seleção já foram, um dia, apenas uma única célula microscópica. A regra de ouro da esperança cristã é que devemos avaliar o começo pelo seu fim glorioso, e não o contrário. Quando olhamos para a nossa igreja, não podemos apenas focar na pequena planta lutando para sair da terra; precisamos olhar ao longo da sua história, enxergando através do tempo até a consumação da colheita.
Além disso, o nosso descontentamento crônico surge porque confundimos a essência espiritual da igreja com as suas estruturas humanas. Os suntuosos edifícios religiosos não são a igreja; como o autor ironiza, eles são apenas a parte da igreja construída para proteger os santos contra a chuva. Da mesma forma, as placas e denominações são apenas uma “ninharia” humana, incapazes de criar verdadeira unidade. A igreja se define pelo ajuntamento de crentes em torno de Cristo, de uma só Bíblia e dos sacramentos. O seu verdadeiro coração pulsante é o próprio Espírito Santo, que paira sobre um mundo dominado pela morte e corrupção para introduzir, no meio do caos, uma vida espiritual irresistível e contagiosa.
Portanto, o chamado à ortodoxia não é um convite para tolerarmos a mediocridade, mas para abandonarmos o perfeccionismo que nos isola do Corpo de Cristo. Haverá sim falhas, rugas estruturais e irmãos que se desentendem a uma distância de poucos bancos. Em vez de se afastar, aprenda a olhar ao longo da linha do tempo: contemple os inícios nada promissores com onze trabalhadores braçais em um monte na Galileia e, em seguida, lance os olhos para o futuro, antevendo a glória inimaginável que nos aguarda. Pare de exigir o estado final da redenção na terra hoje e invista a sua vida no povo de Deus, sabendo que nem olhos viram nem ouvidos ouviram aquilo que o Senhor preparou para a Sua amada Noiva.
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