14/07/2025

Como Jesus é capaz de "compadecer-se das nossas fraquezas"?

Jesus ainda é acessível

Os puritanos eram um grupo de pastores ingleses no século 17. Seus escritos e pregações tinham uma força especial, pois mesclavam uma alta compreensão teológica com um coração genuíno de amor a Deus. Suas mentes e corações estavam encharcados das Escrituras. Um típico livro puritano pegaria um único versículo da Bíblia, extrairia dele todo conforto e esperança que nele se encontravam e então, várias centenas de páginas depois, seria enviado a uma editora.


 

Thomas Goodwin era um desses puritanos. Em 1651, ele escreveu um livro chamado O coração de Cristo no céu para os pecadores na terra. O único versículo do qual estava extraindo todo o conteúdo era Hebreus 4.15:


 

Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado.


 

O objetivo do livro de Goodwin é ajudar cristãos desanimados a entender algo muito importante sobre Jesus. Trata-se de uma verdade tão difícil de acreditar por ser muito maravilhosa. O objetivo de Goodwin é nos convencer de que, embora Jesus esteja agora no céu e não possamos mais vê-lo, Jesus continua sendo tão aberto e terno em seu abraço aos pecadores e

sofredores quanto em seu ministério terreno. Em outras palavras, Jesus é tão acessível e compassivo agora, do céu, como sempre foi quando andou na terra.


 

Solidariedade com Jesus

Imagine um amigo pegando sua mão e colocando-a no peito de seu pai para sentir seu coração batendo. Goodwin diz que Hebreus 4.15 é como esse amigo: esse versículo pega nossa mão e a coloca no coração de Jesus Cristo. O puritano nos diz que esse versículo "nos permite sentir como seu coração bate e sua afeição anseia por nós".


 

Mas o que exatamente Hebreus 4.15 está dizendo? É um verso com mais profundidade do que podemos pensar. Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. Tendemos a pensar que Jesus só está conosco quando tudo está bem. Claro, isso tem algum grau de verdade. Mas esse texto acrescenta outra verdade. De um modo mais especial, é nas "nossas fraquezas" que Jesus se compadece de nós. Em cada fraqueza – nosso medo, nossa ansiedade, nossa solidão, tudo o que nos faz sentir fracos –, Jesus "simpatiza" conosco.


 

Mas o que isso significa? A palavra do grego que significa simpatizar tem o sentido de "sofrer com" ou "co-sofrer". Em outras palavras: quando estamos fracos, ele sente isso conosco.






 

A palavra teológica para isso é solidariedade, que significa "estar com". Ele está bem ali conosco. Em nossa dor, Jesus está sofrendo. Em nosso sofrimento, ele trata nosso sofrimento como seu, ainda que não seja. Isso não significa que sua divindade invencível (o fato de que ele é Deus) esteja ameaçada. Antes, significa que seu coração é atraído para nossa tristeza e fraqueza. Seu amor é um tipo especial de amor que não pode ser retido quando vê seu povo sofrendo.


 

Mas como sabemos que Jesus de fato entende o desânimo que estamos enfrentando? O texto nos diz: ele foi "tentado" (ou testado) exatamente "como nós". Não apenas isso, mas "em todos os aspectos" como somos. Por que Jesus é tão solidário conosco? Porque o caminho difícil em que estamos passando não é exclusivo para nós. Ele mesmo viajou nessa estrada. Jesus não é só um médico que cura os nossos problemas; mais do que isso, mais do que um mero alívio: ele está conosco em nossos problemas, como um médico que sofreu a mesma doença.

Jesus não é um super-herói da Marvel, poderoso demais para se identificar com os fracos. Ele era um homem sem pecado, não um Super-Homem sem pecado. Jesus dormia em uma cama. Provavelmente teve espinhas aos treze anos. Nunca teria aparecido na capa de uma revista (ele não tinha "nenhuma beleza para que o desejássemos", cf Is 53.2). Cristo veio a nós, pessoas normais, como um homem normal. Ele sabe o que é ter sede, fome e ódio e ser rejeitado, ridicularizado, excluído, envergonhado, abandonado e incompreendido. Sabe o que é estar sozinho. Seus amigos o abandonaram quando mais precisava deles; se tivesse vivido hoje, todos os amigos do Facebook o teriam removido quando completou trinta e três anos e foi crucificado.


 

A chave para entender o significado de Hebreus 4.15 é considerar igualmente as duas expressões: "em todos os aspectos" e "mas sem pecado". Toda a nossa fraqueza - na verdade, toda a nossa vida - está manchada pelo pecado. Se o pecado fosse da cor azul, não diríamos ou faríamos algo azul de vez em quando; na verdade, tudo o que dizemos, fazemos e pensamos teria manchas azuis. Mas não é assim com Jesus. Ele não tinha pecado. Nenhum azul. Ele era "santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores" (7.26). Por isso, devemos entender a frase "em todos os aspectos" (4.15) de uma forma que mantenha a impecabilidade de Jesus sem diluir o que essa frase significa. Aquela tentação sedutora, aquela provação dolorosa, aquela perplexidade desconcertante - ele esteve lá. De fato, porque é perfeito, Jesus sentiu essas dores com mais intensidade do que nós, pecadores.


 

Considere sua própria vida. Quando parece que todos estão contra você, talvez até seus próprios pais. . . quando você não entende seus sentimentos ou emoções. . . quando seu melhor amigo te decepciona. . . quando você se sente profundamente incompreendido. . . quando você é ridicularizado. . . aqui está o que você deve saber: lá, bem ali, você tem um amigo que sabe exatamente como é essa tristeza. Ele mesmo sente. Você pertence a ele. E embora seus amigos possam desfazer sua amizade, Jesus nunca fará isso com você.


 

Nossa tendência é sentir que, quanto mais difícil a vida fica, mais sozinhos estamos. À medida que afundamos ainda mais na dor, afundamos ainda mais no isolamento. A Bíblia nos corrige. Cristo está em nós e carrega conosco a nossa dor. Nunca estamos sozinhos. A tristeza que parece tão única para nós foi suportada por ele no passado e agora é suportada por ele no presente.


 

Se você está em Cristo, você tem um amigo que, em sua tristeza, nunca lançará um "papo furado triunfalista" do céu. Jesus não suporta manter-se à distância. Nada pode detê-lo. O coração dele está muito ligado ao seu.

 

 

 

Esse artigo é uma adaptação de O coração de Jesus: Descobrindo a infinita compaixão do Salvador, de Dane C. Ortlund.