01/06/2026

Como a obsessão por nós mesmos destrói a nossa fé

Na tentativa de se tornar palatável para a cultura moderna, a igreja evangélica passou por um processo sutil, porém devastador, de secularização. Para não ofender a sensibilidade de uma geração narcisista, nós alteramos o nosso próprio vocabulário. Como Douglas Wilson alerta na obra Fundamentalismo puro e simples, substituímos a santidade pela integridade, o arrependimento pela recuperação, a verdade pela intuição e a fé pelo mero sentimento. O resultado dessa erosão doutrinária é que Cristo e a Sua cruz foram removidos do centro da nossa visão, dando lugar a um individualismo permissivo, onde o foco principal passa a ser o nosso próprio bem-estar e a gratificação imediata.

 

Essa mentalidade terapêutica trata as nossas falhas como meros problemas de limitação humana ou traumas psicológicos. Contudo, a teologia ortodoxa nos confronta com uma realidade muito mais dura: nosso problema central não é a finitude, mas a rebelião contra Deus. O abismo que nos separa do Criador não é uma questão de tamanho ou do número limitado de nossas moléculas, mas sim um abismo ético provocado pela nossa arrogância moral.

 

O mundo secular tenta reduzir o cristianismo a uma crença terapêutica isolada, celebrando a religião apenas quando ela nos traz conforto psicológico ou “funciona” para nós. No entanto, focar a fé apenas nos resultados subjetivos que ela nos proporciona é o caminho certo para nos tornarmos as pessoas mais infelizes da terra.

 

Quando abandonamos a adoração ao Criador para focarmos apenas em nós mesmos, entramos em um ciclo existencial destrutivo. Wilson levanta uma questão profunda: qual é o propósito final, o telos do pecado? A resposta é que o fim último da nossa rebeldia é ser fundamentalmente incoerente. Ela se resume a “eu, eu, eu… um roer infindável sobre os ossos do que restou de ‘mim’”.

 

Sem Deus, a alma humana perde o seu referencial e passa a devorar a si mesma, restando apenas os detritos e os resíduos daquilo que um dia foi a gloriosa imagem do Criador. O pecado promete autonomia, mas entrega isolamento. Promete liberdade, mas produz escravidão. Promete plenitude, mas deixa apenas fragmentos.

 

É exatamente por causa dessa idolatria do “Eu” que a doutrina do juízo final se tornou tão repulsiva para o cristão moderno. O autor argumenta de forma contundente que o nosso problema com o Inferno é emocional, e não teológico. Nós queremos que a graça e a misericórdia divinas sejam exigidas como se fossem o nosso direito garantido, esquecendo-nos de que, se nos fossem devidas, deixariam de ser graça e misericórdia.

 

A ironia trágica da nossa época é que rejeitamos os padrões de Deus, mas aplicamos rigorosamente os nossos próprios padrões de justiça contra o nosso próximo o tempo todo. Sabemos perfeitamente identificar os erros quando os outros falham conosco, mas usamos o artifício frouxo de dois pesos e duas medidas para avaliar e justificar os nossos próprios pensamentos e atitudes.

 

A verdadeira salvação exige que tiremos os olhos do nosso próprio umbigo. A danação, em sua essência, não é nada mais que a volta final e completa para dentro de si mesmo. É o isolamento absoluto e aterrorizante do ego humano.

 

Em contrapartida, a salvação ocorre quando somos resgatados desse buraco negro interior. A alma é reunida ao corpo e finalmente se volta para fora, para adorar a Deus e desfrutá-lo para sempre. O evangelho não existe para nos ajudar a amar mais a nós mesmos; ele existe para nos libertar da escravidão de nós mesmos.

 

A igreja contemporânea precisa com urgência abandonar a religião terapêutica e voltar a pregar o arrependimento histórico, o único remédio capaz de nos libertar da pior prisão do universo: nós mesmos.